Review de Star Wars: Visions – Novos horizontes para a antiga franquia espacial americana

Excelente antologia de SW a partir dos olhos de autores japoneses.

Para quem conhece a origem de Star Wars, sabe que o George Lucas bebeu muito de obras nipônicas da época para compor os Jedis de sua criação. Semelhantes ao estilo dos samurais representados no cinema junto da religião budista em que predominam a paciência e harmonia com tudo que nos rodeia, permeia a mitologia imaginada pelo autor dessa epopeia galáctica.

Quando anunciaram essa série animada em que teríamos estúdios japoneses com total liberdade criativa para usarem os conceitos da franquia Star Wars estabelecidos anteriormente, e imaginá-los na concepção de histórias alternativas separadas da saga normal, essas animações se tornaram atrativos para mim, despertando minha atenção de como esses criadores iriam retrabalhar essa história amada por muitos fãs espalhados pelo mundo. Assim, no dia do lançamento, assisti todos os 9 episódios disponibilizados no Disney+ e aqui estou para escrever um pouco das minhas impressões do que eu gostei (ou não) de cada um, já que são histórias independentes e acredito que todos os capítulos mereçam algum comentário.

SINOPSE: Visions é uma série de antologia que celebra a franquia “Star Wars” a partir de diferentes curtas no estilo anime. A cada episódio, um animador ou estúdio de animação japonês coloca sua lente sobre o universo criado por George Lucas, compartilhando o resultado com o público. Ao todo, são 10 visões fantásticas que, juntas, trazem uma perspectiva nova e multicultural para a Galáxia tão, tão distante.

Diferente do que eu costumo fazer aqui no blog em que eu resumo os principais pontos de uma temporada de algum anime na minha percepção, nessa review irei comentar sobre todos os episódios de forma separada. Eu quero tentar abordar sobre tudo que acho relevante dessa série e explicar porque acho Visions maravilhoso, mas que nem todos os episódios apresentam esse nível de excelência em relação aos demais.

Episódio 1 – O Duelo

De toda essa primeira temporada de Visions (estarei torcendo por mais temporadas no futuro), esse capítulo foi o que mais apresentou referências aos filmes do Kurosawa. Até diria que tem muito o feeling do longa Yojimbo em que temos dois grupos em conflito, com um Ronin chegando no local durante o estopim da luta no local, tendo sua própria visão e alinhamento sobre as questões envolvendo Jedis e Siths. Com uma mistura de Japão feudal ao mesmo tempo tecnológico, dando umas leves pitadas de steampunk, todo o enredo é sustentado pelo conflito da Sith com o herói errante. Aliás, palmas para a parte técnica desse episódio, porque o visual tem uma identidade única e que paralelamente busca familiaridades com os longas do antigo diretor japonês famoso, tanto na fotografia quanto no ritmo.

Adorei o embate do protagonista samurai (pelo que dá a entender, ele não é Jedi e nem é do lado do mal da força) com a general Sith. Mesmo tendo um guarda-chuva giratório de sabres (achei irado, quero um para mim xP), a luta é muito bem coreografada, com uma edição na medida certa do começo até o seu desfecho. Também gostei do “novo” R2-D2, introduzido com umas funcionalidades bem excêntricas para o combate contra o exército de stormtroopers.

Como a história é fechada no próprio episódio, lembrou muito um curta de uma realidade alternativa da saga, servindo como um excelente passatempo para os fãs que gostam de criatividade ou de referências a samurais na saga.

Episódio 2 – Balada de Tatooine

Esse e o próximo, são os episódios que menos gostei dessa coletânea de Visions. Achei simpático o visual e a animação está bem-feita, mas eu não consegui ver Star Wars ali. Nem estou falando da ausência de lutas entre sabres ou conflitos espaciais, e sim que parecia em capítulo filler inserido ali. Compreendo que é uma nova abordagem, uma outra visão sobre um aspecto não explorado antes, sobre o modelo de entretenimento naquela galáxia. Só que é algo tão tangencial, tão pequeno e tão insignificante ver uma banda tocando por aí, que parece ser um tapa buraco no pacote que foi pedido, e na falta de ideia, insere uma história qualquer só para entregar a solicitação da empresa do rato bilionário.

Ainda tem o fato que eu não curto muito histórias focadas em músicas. Se perde muito tempo em apresentações musicais gigantes, deixando a trama de lado para um fanservice visual bem dispensável. E considerando que o episódio tem menos de 18 minutos, você ter mais de 6 minutos com personagens tocando músicas genéricas quaisquer, acaba deixando o ritmo enfadonho e tedioso.

Como não temos aspectos ou elementos interessantes sendo trabalhados no roteiro, esse episódio 2 acabou sendo ofuscado pela qualidade dos demais, sendo um dos mais fracos entre todos os 9.

Episódio 3 – Os Gêmeos

Esse foi o episódio que eu menos gostei de Visions. Explico, calma aí. Eu vou elogiar o início, porque os primeiros 4 minutos do episódio é bem feito, remetendo a trilha sonora, edição e até referências a personagens clássicos de Star Wars. Mesmo com uma arte bem chamativa, ainda tinha certos aspectos que remetiam a saga, resultando uma certa familiaridade e identificação com SW. O problema realmente é a luta entre os gêmeos. Ali acho que foi exagerado demais.

Eu amo Gurren Lagann (anime feito pela mesma equipe daqui), mas lá, os seus exageros são inseridos de forma mais cadenciada durante seus mais de 20 episódios. Não existe um salto absurdo ou extravagâncias de poderes em que tira o seu senso de níveis de força entre os personagens. No episódio dos irmãos, temos paradas absurdas estarem acontecendo sem qualquer explicação devida, como um X-Wing parada no hangar de um Star Destroyer, ou os personagens no vácuo conseguirem respirarem e CONVERSAREM, ou um humano não ter o seu corpo desintegrado com a força aplicada nele em cima da nave na velocidade da luz ou com sua entrada na atmosfera de um planeta conhecido, entre outras paradas que surgem sem ligação ou aplicação no roteiro, fazendo com que tudo ficasse deslocado, somente sendo uma justificativa para algo visualmente bonito.

Logo, como nenhum desses conceitos são trabalhados anteriormente, tudo que vai aparecendo na tela, vira algo pirotécnico só porque o roteirista quis (ou o diretor mesmo). E literalmente os siths viraram sayajins, usando os cristais kybers como fosse um mineral que gera energia sozinha, aumentando seus midi-chlorians a níveis inimagináveis. Só me veio na cabeça o nono filme merda, Ascensão Skywalker, da linha principal, com seus exageros e distorções de alicerces estabelecidos nos filmes anteriores.

Em resumo, em vez de uma história Star Wars com a visão do estúdio, tivemos foi um episódio de anime qualquer da Trigger com uma skin de SW por cima dos personagens. Aqui na história dos gêmeos, foi o episódio que mais me pareceu que a equipe de produção não sabia o que estava fazendo, não trabalhando ideias novas e sim reciclando acertos de obras anteriores da Trigger sem casar com o roteiro praticado.

Episódio 4 – A Noiva Anciã

Se no capítulo anterior temos o distanciamento da essência de SW, aqui regredimos para algo mais íntimo, explorando o relacionamento das espécies com a natureza que os rodeia na galáxia. O episódio 4 nos apresenta a história de um planeta remoto, em que aldeias locais passam por pressões externas da República para obediência completa da região com o regime totalitário. É uma narrativa bem mais contemplativa sobre o que podemos decidir o que fazer e qual lado tomamos em frente aquilo que acreditamos. Basicamente o conflito da princesa da região em ser obrigada a ir para o império e a Jedi que está na região decidindo se ajuda ou não os necessitados.

Os diálogos são ambíguos, não deixando claro em que época se passa ou como está a situação dos Jedis na galáxia. Ao que dá a entender, os Jedis foram exiliados e vivem escondidos, justificando a Jedi do episódio cogitar ficar na alheia ao que rola naquele planeta. A história é bem cadenciada, tendo uma boa composição na sequência final que teve um embate do Império com a protagonista (considero mais a Jedi como personagem principal do que a princesa). O ponto negativo que aponto seria a edição no minuto final, que parecia um tanto apressada, passando a sensação de que acabou a verba, bora só terminar aqui. E vendo esse episódio, esse é o tipo de narrativa que espero da série do Obi-Wan. Veremos se confirma minhas suspeitas.

Episódio 5 – O Nono Jedi

O meu episódio favorito. O que Rokka no Yuusha não conseguiu em 12 episódios, em menos de 20 minutos, O Nono Jedi conseguiu implementar suspense, twist, cenas de ação excelentes e criatividade em possibilidades para o SW de forma ampla. O episódio é dividido em dois núcleos: o primeiro é um local remoto e isolado em que temos 8 Jedis (ou que se auto afirmam ser), dizendo que vieram por causa de um chamado que receberam, com promessas de ganharem sabres de luz, objeto perdido há muito tempo naquela realidade mostrada no roteiro. Nessa introdução, já nos é apresentado um clima esquisito, gerando um mistério por trás da identidade do grande organizador do encontro, ao mesmo tempo que os ditos Jedis, nenhum parecem serem de confiança, com todos suspeitando um dos outros. Quem é o traidor? Nós sabemos que algo está errado e somos levados para um lado, e ao que tudo indica, alguém vai sabotar essa reunião, tudo graças aos diálogos e ritmo muito bem encaixados.

Indo para o segundo núcleo, temos o ferreiro e sua filha conversando sobre a importância da Força e de que aqueles sabres são itens valiosos para o líder da região (que é o nobre que organizou a reunião dos Jedis no meteoro). Tudo vai se ligando de forma orgânica, para o desfecho com a revelação de quem está atrapalhando os Jedis de se encontrarem para montarem a resistência. E é no núcleo da filha do ferreiro que temos algumas modificações de conceitos, como por exemplo que os Siths e os Jedis são espécimes que viraram lendas de contos antigos, parecendo serem de um passado bem distante para a época que se passa a franquia original. Outro lance que curti foi que agora as cores dos sabres indicam as índoles do usuário que a maneja. Esse conceito é até citado bem por cima no universo expandido, entretanto é aqui que foi trabalhado como parte importante para a revelação que temos no final do enredo.

Além disso, não posso deixar de elogiar a parte técnica e sonora do Nono Jedi, pois é algo muito notável e presente na sua execução. Temos umas sequências que por breves momentos, voltei a minha infância, num clima de nostalgia e satisfação, em um grande misto de emoções intensas que não conseguiria expressar na totalidade tudo o que eu senti no momento. O episódio 5 é um dos que recomendo a todos fãs da saga verem, sem medo de ser feliz.

Episódio 6 – T0-B1

Uma clara homenagem a Astro Boy foi esse episódio. Pior que não tenho muito o que comentar sobre ele, pois não foi algo para expansão da saga e sim reverenciar um clássico misturado ao que já vimos no cinema com SW. O episódio em si é bem fofo e divertido de acompanhar. Foi uma aventura inocente sobre um androide ser um Jedi e de como o despertar da Força também pode aparecer nos seres mais improváveis nessa gigantesca galáxia.

Teve uma coisa que gostei foi que o criador de T0-B1 foi um Jedi, porém se exiliou graças a caça desses guerreiros pelo império. Novamente exploram esse lado de um ambiente difícil para o lado do bem da Força se sobressair e é uma das características que curto nos primeiros filmes, com a dificuldade do herói em lutar contra uma grande organização.

Não curti tanto assim a sequência de ação no final. Achei ela bem poluída visualmente, dificultando meu entendimento do que está acontecendo. Sei que o androide protagonista ganhou com muito custo, mas que muitas vezes eu só sabia o que acontecia, quando algum dos dois lutadores se machucavam. De resto, o episódio é bem agradável de assistir.

Episódio 7 – O Ancião

Diferente do episódio dos Gêmeos, aqui o estúdio Trigger foi para um lado totalmente oposto, tanto em ritmo quanto narrativamente falando. Basicamente é uma aventura de um Padawan em missão de paz pela galáxia. Aqui temos uma situação invertida, em que os Siths agora são raridade e que os Jedis foram incumbidos de caçar os remanescentes. O episódio Ancião é de longe o que foi mais no “safe” em contar algo sobre SW. Não se tem nada que foi alterado ou ‘reimaginado’ para uma nova roupagem. Literalmente, se esse mesmo roteiro fosse aplicado (com ligeiras modificações) em uma série derivada, como Clone Wars, muitas pessoas nem saberia diferenciar qual seria a história alternativa da canônica.

Aqui também não temos a extravagancia visual característica do estúdio Trigger, podendo se passar por quaisquer produções de outras empresas de animações japonesas. Não tenho pontos negativos para apontar na história do Ancião, entretanto também não tenho grandes elogios. Foi bem mediano em sua execução, com momentos pontuais de excelência na sua produção, como a luta entre o mestre e o Sith fugitivo.

Definitivamente não será algo que te marcará, mas ainda é uma história com muito Star Wars no sangue, agradando até os fãs mais exigentes da marca.

Episódio 8 – Lop & Ochô

Mais um excelente episódio. Primeiro pelo fator das misturas de culturas e referências que temos nesse episódio, desde de um steampunk medieval para algo high tech, sem causar estranheza ao espectador. Segundo pela história sobre a família que está sendo contada. As irmãs acabam tomando lados opostos, mesmo tendo os ideais de protegerem os seus parentes e tradição a qualquer custo. E terceiro pela mensagem de superação, em que não precisamos ter laços sanguíneos para considerarmos alguém da nossa família. Desde que haja confiança mutua, meras limitações e formalismos são deixados de lado para o fortalecimento desses laços.

Novamente é mais um episódio que apresenta um nível de produção elevadíssimo, como nos cenários, quanto aos designs dos personagens. A tradição japonesa de respeito e legado são usados como forma de ainda mais enriquecer esse mundo que nos foi apresentado aqui. Semelhante ao que acontece no episódio 5, a história termina um arco, porém não podemos considerar que foi finalizada. Gostaria de revisitar novamente essa história para acompanhar os desdobramentos das decisões que as duas irmãs protagonistas tomaram para os seus caminhos que seguiram.

Episódio 9 – Akakiri

Até gostei do episódio como fechamento dessa antologia. Primeiro, porque é o único que termina em um tom pessimista, em que o lado sombrio da força vence a disputa. E segundo é que foi uma releitura do principal drama de Anakin nos filmes prólogos da saga, em que o medo de perder sua grande paixão, escurece sua razão, resultando no abandono por completo do caminho do bem.

Assistindo os episódios em sequência, nunca que me passou pela mente que o protagonista daqui iria se corromper. Também reforçam certas coisas, como o lado sombrio da força tem habilidades de curar ferimentos fatais, podendo ressuscitar os mortos, que só são abordados com mais profundidade no universo expandido. O desejo de manter os entes queridos vivos pode corromper a mente de qualquer um em frente a um perigo eminente. E fica a dúvida: até que ponto nós iríamos para garantir a segurança de sua família? São questões levantadas aqui.

Outras coisas mais pontuais sobre o Akakiri, eu adorei a montagem de cenas da jornada deles retornando para o palácio. Resumiu algo para poucos segundos, porém estabeleceu muito bem o vínculo dos personagens e seus anseios para um futuro nada promissor. A produção também está bem decente, principalmente a fotografia quando o protagonista Jedi cai em desgraça, sucumbindo ao lado do mal. Muito bem feito.

Conclusão

Assisti e estou completamente satisfeito com Star Wars Visions. Gostaria de mais temporadas e recomendo para aos fãs da franquia que vejam essa antologia para expansão de novas ideias que possam ser usadas mais para frente na saga principal. Não precisa ter visto, Rebels, Clone Wars, ou qualquer obra derivada de SW para aproveitar a experiência de consumir Visions. Fica aqui minha recomendação.

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