Review: Me Apaixonei Pela Vilã! (volume 1)

Olá gente. Eu normalmente me ocupo com análise de filmes e doramas, mas ocasionalmente me animo de falar sobre outras mídias como quadrinhos e mangás. Já que estamos a algum tempo com a obra de Inori a venda pela editora NewPOP no Brasil (link aqui), vamos a esta analise e impressão do primeiro volume da novel Me Apaixonei Pela Vilã! (I’m in Love with the Vilainess) feita por esta humilde redatora.

A novel é da demografia Yuri (GL), estando atualmente completa com 5 volumes, com o segundo volume confirmado a ser publicado no Brasil. Regularmente quando forem lançando em território nacional, farei as impressões dos demais volumes também.

Sinopse: Um dia Rei Oohashi acorda no corpo da protagonista do seu jogo de romance favorito: Revolution. E para sua felicidade, a primeira pessoa que ela vê é sua personagem favorita: Claire François, a principal antagonista do jogo. Agora, Rei está determinada a ter um romance com Claire em vez dos vários rapazes que o jogo oferece. Mas como a vilã irá reagir a esse acontecimento imprevisível?


Antes de começar a analise, deixo claro que não me arrependo de ter adquirido este titulo da Newpop, pois o texto é extremamente prazeroso e divertido. A escrita da Inori é bastante leve, conseguindo te prender, sem deixar o leitor exausto ou enjoado, mesclando cenas de comédia com conteúdo um pouco mais denso, mesmo que ela ainda não se foque nele. Apesar de não ser a primeira obra com personagens homossexuais que leio, Me Apaixonei pela Vilã foi a primeira Light Novel da demografia Yuri que adquiri. Então é minha primeira experiência real com este tipo de obra japonesa.

Além disso, por esta acostumada com BL’s, imaginava que talvez a historia também pudesse ter, dependendo da abordagem, problemas com clichês de personagens, mas fiquei feliz pelo estereotipo ser a personalidade tsundere da Claire, que é uma personagem com elementos interessantes – e alguns bem problemáticos. Problemática, definitivamente esta é a característica que eu considero como o maior marco de Claire Françõis, a dita vilã da obra e interesse amoroso de nossa protagonista, Rei Taylor.

Inicialmente, não estava gostando muito do relacionamento tóxico estabelecido entre as personagens. E leitor, você tem que ter ciência que a interação das duas não é orgânica. É um relacionamento cansativo e baseado em mecânicas de poder.

Rei é extremamente obsessiva com Claire. Chega a assustar o nível de devoção doentia que ela sente pela garota apenas por ela ser sua personagem favorita de Revolution. Basicamente se propõe a suportar as piores humilhações e bullying da madame só para interagir com a vilã. Posteriormente entendemos que ela faz isto para tentar mudar seu trágico final, mas continua sendo estranho e muito desconfortável as situações que ela aceita se submeter para cumprir este objetivo.

Sabe o que mais é assustador? Rei ainda trata todo o ambiente a sua volta como o jogo, mas vou entrar mais profundamente neste assunto posteriormente. No entanto, que surpresa eu tive ao notar que tanto Rei e a Claire possuem camadas quase que invisíveis que escondem duas personagens maravilhosas e se devidamente trabalhadas, serão personagens profundas e muito bem construídas.

Claire é uma pessoa definitivamente desagradável e fácil de odiar, com uma personalidade horrível e uma atitude mais terrível ainda. Tem aquela prima chata que vive te mandando jogar o papel da bala fora e esfregando na sua cara que tem mais dinheiro que você? Basicamente esta é nossa heroína.

Contudo é compreensível de onde vem o orgulho e o comportamento agressivo da “vilã”. Como uma nobre ela é criada para se ver como alguém naturalmente superior, uma pessoa que deve ser reverenciada e respeitada pelas classes menores, não o contrário. Acrescentando ao fato que ela foi mimada e possui uma cobrança imensa pelos pais (e a sociedade a sua volta) por ser de uma família influente. Temos a formula perfeita para criação do Diabo.

Em determinado momento da obra, Rei passa a chamá-la de protagonista fácil, porque entendendo o funcionamento da Claire, ela é mais tranquila de se lidar, o que não quer dizer que é fácil de se conviver com a dita cuja já que a jovem dama é extremamente temperamental e requer muita paciência e jogo de cintura para se relacionar com ela diariamente.

A Claire é resumidamente como uma criança extremamente egoísta que não aceita um não e gosta de ser o centro das atenções, mas isto é parte do que chamamos de Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN) que ela desenvolveu pelos seus traumas mesclado a criação bajuladora e protetiva dos pais .

Contudo, apesar de toda a sua posse de grandiosidade e de orgulho, ela tem uma mente muito frágil e externa isto em uma máscara de perfeição. Ela tem necessidade de ser reconhecida por suas realizações, de ter prestígio e influência. Toda esta ânsia de ser especial e se provar merecedora de elogios e bajulações, é bastante externado em sua competitividade com Taylor. Por ser da família François, ela tem que ser a melhor. Portanto, é inadmissível para Claire que uma plebeia seja mais habilidosa e se destaque acima de si mesma.

Pessoas narcisistas também se recusam a se relacionar com pessoas que não sejam extraordinárias. Esse interesse em relacionamento com pessoas espetaculares é usado para melhorar sua autoestima. Isto é externado quando ela fala para Lene Orso que ela não é qualquer empregada. Por ela ser sua doméstica, ela tem que ser a melhor de todo o reino.

Capitou amigos? Claire pode aceitar Taylor porque Taylor é extraordinária, e ela por ser uma François, não aceita nada menos que o extraordinário. Mesmo sendo uma plebeia, ela consegue aceitar pessoas que são habilidosas e esforçadas já que ela tem interesse em se relacionar e competir com elas.

Em contrapartida, ela não suporta críticas e falhas. Tudo tem que estar dentro dos planos e fantasias dela ou o mundo desmorona. Qualquer frustração pode ocasionar situações de agressividade ou autodepreciação extremas. Para se defender, ela ataca, para não ser um fracasso e demonstrar fraqueza. Ela não chora. Ela se reprimi na mulher perfeita.

Enquanto a protagonista, Rei Taylor, ela é igualmente problemática e fascinante. Inicialmente ela só é irritante mesmo. Suas atitudes são abusivas e evasivas. Alguém que é a caricatura de homossexual libidinoso e intrusivo, pessoa desinibida e cara de pau. Contudo, em determinado momento da obra, ela admite que tem este comportamento, principalmente com Claire, como uma fachada. É um mecanismo para suportar o peso de ser a diferente e não quebrar.

É explicito que Taylor finge ser a pessoa super alegre e maluca que dar em cima da vilã, faz piada sobre si mesma, e acaba sendo bem perseguidora e assediadora, mas tudo isto é apenas uma forma de se proteger. É uma persona para esconder sua fragilidade.

Assim como Claire usa sua grandiosidade para esconder sua sensibilidade, Taylor usa a sua “depravação” e comentários indecentes para aguentar os preconceitos direcionados para si e principalmente, para aceitar que talvez ela nunca seja correspondida pela pessoa que ela está apaixonada. Até porque, pelos materiais do jogo (do qual ela conhece aquele mundo), Claire tem interesses no Principe Sein, sendo aparentemente heterossexual.

Outro fator problemático na personagem é sua fantasia, seu desejo de escapar, a ânsia de fugir de todos os seus problemas depressivos – o escapismo exacerbado que ela trouxe da outra vida. É bastante nítido que ela considera todos os acontecimentos até o presente momento como se ainda estivesse no jogo. Mesmo tendo ciência que reencarnou, para si, aquilo ali é um presente para sua devoção e amor a Claire.

É assustador o quanto para lidar com a verdade, a protagonista foge da realidade. Em momento nenhum ela tratou a Claire, Misha, Lene e os príncipes como pessoas, mas todos como apenas os personagens que ela conhece do seu jogo e portanto, ela vai usá-los, e junto de seus conhecimentos, para entregar um final mais feliz a Claire.

Isto é bem externado nos capítulos de Cavalaria Academial e Movimento Plebeu, no qual ela demonstra não ter interesse nenhum pela política e o que acontece de fato no reino, mesmo que tenha ciência que uma revolução literal esta prestes a acontecer. E o mais bizarro é que ela sabe que por mais de não se importar tanto com politica e religião, as duas coisas interferem diretamente em sua vida, mas ela pensa nisso apenas como complicadores de seu relacionamento com Claire e não como algo que pode provocar a morte de pessoas queridas para sua amada e da própria Claire.

Resumindo, neste volume ainda não aconteceu nenhum clima para a quebra de perspectiva da protagonista. Sem evento extremo para que Taylor perceba que aquilo ali é realmente verdade, que as suas ações são significativas na vida daquelas pessoas, porque elas são reais e não personagens.

Tem diversos momentos que ela se toca que Claire faz movimentos que vão além do jogo, mas simplesmente ignora ou esquece por causa de sua obsessão. Nem mesmo na situação que o Príncipe Sein estava entre a vida e a morte, ela se preocupa em talvez falhar e a pessoa que a Claire ama morrer na frente dela, porque confia que tudo ali joga a favor de si, e nada foge aos conhecimentos e previsões que ela tem do jogo.

E sabe o pior? Se a Taylor se descuidar, Claire vira realmente a vilã, porque é realmente fácil para a protagonista ir de um extremo a outro por causa do transtorno de sua personalidade. Qualquer infelicidade e Taylor talvez realmente despertasse o que os François tem de mais negativo. Portanto, como ainda trata todas as situações e o ambiente a sua volta como o virtual, Taylor ainda não sentiu nenhuma consequência e responsabilidade de suas atitudes. Não sentiu a dor de errar e causar sofrimento em outra pessoa.

Estou claramente ansiosa em ver como ela vai lidar com a Claire pessoa e não a Claire personagem. Como ela vai reagir ao descobrir que aquela aristocrata VAI MUITO MAIS ALÉM DO CONTEÚDO DO JOGO. que ela é realmente frágil, profunda e única, não podendo ser substituída, porque NÃO É ALGO FICCIONAL. Ela é, sem duvida alguma, UMA PESSOA REAL.

Além disso, o desenvolvimento progressivo do afeto de Claire por Rei me interessa enormemente, já que em diversos momentos deste volume é dado pistas que Rei já mudou os sentimentos da tsundere. A protagonista esta começando a se tornar uma figura preciosa e importante para ela. Não diria que é amor ou paixão ainda, mas claramente a nobre não a odeia e tem consideração pela plebeia estranha, chegando a aceitar um presente de Taylor (o amuleto de sorte no amor).

E espero muito que nossa querida heroína não tão vilã assim, seja bissexual e não uma homossexual no armário. Eu acho este desenvolvimento bem mais interessante do que “Eu simplesmente me toquei que tenho interesse por mulheres e só sentia admiração pelo Principe Sein”. É bem mais gostoso Claire ir percebendo o que sente por Rei é semelhante ao que sente por Sein, e se tocar gradativamente que ela também é romanticamente atraída pela protagonista.

No demais, Me Apaixonei pela Vilã é um isekai que não se preocupa em ficar gastando horas e mais horas com os elementos fantásticos, fugindo da formula harém da protagonista e se centra na construção do relacionamento da personagem principal com seu interesse amoroso, Claire François.


Nota Sobre a edição da NewPop:

A diagramação é bem adequada. O design de páginas, o tipo e tamanho da fonte, tornam a leitura fluida e agradável. A capa e o postal são lindíssimos, mas o texto carece de uma revisão mais cuidadosa. Chega ser uma coisa estranha, pois eu diria que para um titulo destinado principalmente ao público LGBT, você ter termos arcaicos e ofensivos como homossexualismo para designar uma orientação sexual é grotesco.

Além de possuir erros de digitação aqui e ali, como o tesouraria do reino quando era para ser a tesouraria do reino, sendo um exemplo de que o texto ainda tem piolhos que deveriam ter sido catados e só serão resolvidos em uma reimpressão, o que não seria necessário com uma revisão mais caprichada na primeira vez.


Nota Sobre o mangá:

Me apaixonei pela Vilã possui uma adaptação em mangá (ainda não licenciada no Brasil) com arte de Shimo Aono que pode ser adquirida em inglês pela Amazon (link aqui). Eu li a adaptação até o segundo capitulo do primeiro volume (Cavalaria Academial) e é bastante fiel ao material original. A arte é cuidadosa, no entanto, como toda a adaptação, tem uma perda de conteúdo quando é transferido para o outro material. Neste caso, a novel se destaca por detalhar mais os monólogos internos da Rei e as situações relatadas no mangá.


Nota Sobre Inori:

A autora é bastante receptiva e atenciosa com os leitores. Caso queiram deixar mensagens de apoio e suas impressões da obra dela, o principal canal é o seu twitter: @inori_narou. Ela usa o tradutor para conversar com lusófonos. Não precisam ter medo de deixar mensagens em português para ela.


Ficha Técnica

  • Título original: Watashi no Oshi wa Akuyaku Reijou (私の推しは悪役令嬢)
  • Título nacional: Me Apaixonei Pela Vilã!
  • Autoras: Inori. e Hanagata
  • Serialização no Japão: —
  • Editora japonesa: Syosetsu/GL Bunko
  • Editora nacional: NewPOP
  • Quantidade de volumes: Completo em 5 volumes
  • Formato: 15 x 21 cm; capa cartonada com orelhas
  • Preço de capa: R$ 39,90
  • Compre em: Loja NewPOP/Amazon

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