Jiang Ziya e a consciência do dever

Olá, tudo bem? Eu sou a Selena e novamente depois de muito tempo volto com as produções de animação chinesas e dessa vez apresento a vocês uma obra bastante recente, que estreou dia 02 de Setembro de 2020, Jiang Ziya, que em inglês foi chamado de Legend of Deification (A lenda da deificação).

E sobre o que se trata Jiang Zyia? Basicamente é uma romantização contendo elementos místicos que narra o fim da Dinastia Shang e a instauração da Dinastia Zhou (também escrita como Chou) que durou 800 anos na China, sendo essa a mais prospera e duradoura deles.

O que deve-se compreender é que a mitologia e folclore chinês permeia muito da história da própria China, possuindo muitos elementos históricos. Inclusive Jiang Zyia existiu realmente, sendo um importante Ministro da Guerra e conselheiro de várias figuras politicas importantes na época, mas a animação, óbvio, vai tratar de sua representação mitológica.

Essa epopeia está contida em uma obra chamada Investidura dos Deuses ( Fengshen Yanyi) que tem o mesmo prestigio e importância de A Jornada para o Oeste, configurando uma das mais famosas e relevantes obras que retratam os deuses, assim como a cultura taoista bastante presente na tradição desse povo.

Resumindo a lenda, ela começa falando sobre o Imperador Di Xin, também conhecido como Zhou, que ofende Nu Gua, a deusa mãe da humanidade e por consequência, já que a dinastia estava muito podre, vários deuses, incluindo o Grande Reverenciado Mestre, aquele que ocupava a função que atualmente é do Imperador de Jade, decidem por punir o Imperador e encerrarem a dinastia.

Para tanto, são enviados vários espíritos e seres míticos incumbidos na história de provocarem a queda de Shang e promulgarem a ascensão de uma nova dinastia, entre eles, uma Jiweihuo, um espirito de raposa de nove caudas que possui o corpo de Dai Ji, uma das concubinas do Imperador Zhou, e esta o seduz.

FuLlMoOn_DeAtH — Jiang Ziya: Legend of Deification
Dai Ji é um dos mais antigos arquétipos de Femme Fatale, pois arruína o Imperador Zhou

Ela se torna a mulher preferida de Zhou. Começa a manipular suas ações, toma a posição de rainha e o incita a cometer atrocidades, como executar o seu tio, o sábio Bigan, assim como passa a distraí-lo e influenciá-lo para negligenciar sua função. O que se sucede então é uma guerra entre deuses e homens, entre aqueles que ainda apoiavam a antiga dinastia e aqueles que apoiavam o Rei Wu de Zhou em sua rebelião contra o Imperador Zhou.

Jiang Ziya é uma figura central nessa historia, porque a sua missão atribuída pelo Primeiro Senhor do Céu, Yuanshi Tianzun ( O Grande Reverenciado Mestre) no monte Kunlun é de levantar os heróis desta guerra como deuses e exorcizar Dai Ji. Ele que apoia e ajuda taticamente o Rei Wu de Zhou.

Então a premissa da animação é o dever de Jiang Ziya. Todas as questões levantadas na narrativa começam com o fim dessa guerra, na batalha final no qual Jiang Ziya exorciza Dai Ji. Lembrando que o roteiro possui muitos elementos sutis da epopeia, mas cria um universo próprio com importantes dilemas e filosofias baseadas no taoísmo.

O Grande Reverenciado Mestre é aquele que designa os deveres dos novos deuses

No taoísmo, o universo é composto de dois elementos, ying e yang, que não necessariamente é bem e mal, mas sim o ativo e o passivo no universo. São energias opostas que se complementam, mas a partir delas, o bem e mal são relativos. O bem pode ser mal e mal pode ser bem, depende das suas ações e escolhas. Levando isto em consideração, para cultivar a bondade verdadeira, você tem que conhecer a maldade e a injustiça.

E a animação vai trabalhar exatamente isto: o limiar entre a sua consciência e o dever. A missão de Jiang Ziya era executar Dai Ji e guiar os novos deuses em um recomeço para a humanidade, no entanto na hora que ele deveria concretizar tudo que lhe fora designado pelo Grande Reverenciado Mestre, ele percebe que a vida de uma inocente estava ligada a raposa, recusando-se a sacrificar sua inimiga naquele momento.]

O estopim do filme é a dúvida: verdade ou ilusão? Cumprir o dever cegamente ou salvar uma vida?

Não sendo compreendido pelos seus pares, ele é punido pelos céus por tal ato com o exilio e a reflexão. Basicamente, neste trecho é discutido a perspectiva e como uma narrativa pode influenciar sua visão dos fatos. Para os outros imortais no salão, o que Jiang Ziya viu era apenas uma ilusão. Logo ele caiu nas mentiras da raposa, fraquejando e questionando o julgamento de um superior (o dito Céus e o Grande Reverenciado Mestre).

No entanto, para Jiang Xiya, o que ele havia testemunhado era real e sua ação era correta. Sua consciência o impedia de executar um ato que considerava hedionda, uma ação que não teria volta, sem saber se tudo o que tinha visto era real ou uma ilusão.

Aqui devemos entender que a consciência que profere o julgamento imediato sobre o ato humano, considerando algo certo ou errado, bom ou mal, ou no direito, a licitude de uma ação. Compreende-se então que a consciência quando permeada de princípios morais baseada em fundamentos lógicos e respaldado na analise de fatos e na totalidade de todo o caso. Partindo da compreensão das causas e efeitos, declarando certo e errado o que é realmente tal, ela é verídica ou assertiva. Contudo, quando a consciência parte de princípios morais tidos como genuínos, mas que se respalda em informações incongruentes ou falsamente aplicados ao caso, ela é errônea.

E esta é a discursão central de Jiang Xiya. O verdadeiro bem deve se respaldar na analise de toda a realidade e não apenas de uma perspectiva empregada como certa.

A Raposa representa fatos omitidos, o outro lado da história, o lado que não é contado pelos vencedores.

O ser humano é uma criatura que delimita suas ações entre certo e errado estabelecendo leis gerais para si mesmo. Contudo, quando estas leis não são questionadas e não sofrem processo de reflexão do individuo, a moral é cega e se torna um dogma tirânico.

Como bem questionado pela Raposa, a dita vilã da história, o dever dos deuses eram proteger todas as criaturas vivas, porém os princípios estabelecidos pelos Céus exigiam o sacrifício das raposas. Então que bondade e justiça pura é esta que mente e privilegia apenas uma perspectiva e usa os outros para estabelecer o Bem Maior?

Não são bondade e justiça, mas um domínio da autocracia, a manutenção de uma ordem que apenas visa beneficiar um grupo especifico de seres ou entidades ditas puras, mas que de fato, não são tão puras já que para manter este Bem Maior, não se incomodam em provocar uma guerra ou condenar todo um grupo de pessoas e seres.

O Bem Maior também é o Mal Maior. O próprio Céu no final é a causa dos males no filme.

A perspectiva dos Céus é utilitarista e tecnocrata. Para se manter o bem estar de uma maioria, você precisa sacrificar uma minoria, mantendo assim o equilíbrio do sistema. Esta ação ocasiona o que chamamos de opressão e injustiça, não levando em consideração em momento algum o valor do individuo, já que ele é só um joguete para algo dito maior.

Contudo, no taoísmo, tudo é interligado e conectado. Um é o Todo e o Todo é Um. Então quando ferimos uma minoria, na verdade estamos ferindo o Todo, a sociedade por completo. O sofrimento de Um se expande e afeta o Todo. Então se um membro de seu corpo esta doente, por consequência ele vai afetar seu bem estar e todo o organismo. Este principio esta na frase do Jiang Ziya: “Uma gota forma um oceano. Para mim todas as vidas importam. Se eu não posso salvar uma vida, como eu vou salvar uma nação?”

Jiang Ziya só se torna um deus quando cumpre o seu dever com sua consciência: Uma vida tem o valor de uma nação.

Todos os questionamentos são bem estabelecidos e executados de uma forma deslumbrante. Com o Bem e o Mal sendo retratados como uma perspectiva, uma narrativa. O equilíbrio e a felicidade só são estabelecidos quando a ultima corrente é desfeita e o que ocasionava o mal é quebrado, e o Bem Verdadeiro e Autêntico, guiado pelo sofrimento e a injustiça, desfaz a moral e a lei cega. Então o seu dever não pode estar acima de seu valor. Toda a sua ação deve estar permeado por uma consciência analítica e critica, que não se deixa ser controlada e guiada pelos outros, mas por si mesmo e aquilo que de fato é correto.

Jiang Xiya é uma animação bastante sólida, digna de ser vista, pois além de retratar de uma forma bela os elementos da mitologia e do folclore chinês, também consegue estabelecer diálogo com a atualidade e com a realidade.

Nenhuma sociedade realmente prospera com o sacrifício de minorias. É um sistema ilusório que está fadado a algum momento ser derrubado ou desfeito, pois o sofrimento humano gera o desejo por justiça e toda a mentira e enganação um dia acaba sendo exposta.

A animação é bastante fluida, com um cenário bem composto, tendo uma arte muito bonita e elegante, mostrando o potencial que a indústria de animação chinesa possui. Apesar de ainda continuarem com o velho problema das expressões faciais serem um pouco duras e travadas, vemos um claro progresso e evolução das primeiras animações 3D até a atual que se torna cada vez mais orgânica – e com o tempo acredito que alcançarão um desempenho semelhante as animações da Pixar e da Disney em questão de técnica e design.

Recomendo para fãs de animação e pessoas interessadas na cultura e mitologia chinesa, já que a partir de Nezha (2019), a China pretende lançar um universo cinematográfico focado em seus heróis mitológicos.

TRAILER

Um comentário em “Jiang Ziya e a consciência do dever

  1. Anem, como eu queria assistir esse filme, mas não acho em lugar algum. Desculpa, eu não li a resenha ainda com receio de spoilers.

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