White Snake: Um belo conto tradicional chinês

Olá! Antes de começarmos a discutir essa adaptação que é praticamente desconhecida aqui no ocidente, devo me apresentar. Eu sou a Selena Morales, uma das mais novas colaboradoras dessa humilde casa, apaixonada pela cultura oriental desde os 12 anos. Amo a arte e animação de forma geral, meu gênero favorito é fantasia e sobrenatural, então não se surpreendam se a maioria das coisas que recomendar aqui sejam basicamente isto.

Agora indo ao que interessa, White Snake é uma produção sino-americana de 2019 que se inspira em um dos mais tradicionais e belos contos do folclore chinês, sendo uma história que já foi adaptada em diversos formatos, desde peças teatrais, filmes live action e doramas.

Post artístico do Filme

E sobre o que é o conto? Ele se resumi no amor proibido entre uma serpente e um humano, com todos os eventos em torno da lealdade e devoção de Bai Suzhen, a serpente branca, e Xu Xian, um jovem farmacêutico que a desposa. Mesmo após descobrir que a dama que amava era uma serpente, a aceita porque a ver como realmente é, uma pessoa bondosa e gentil.

Mas onde estar o conflito se ambos se dão bem? Felicidade alheia causa inveja e tem um monge extremista, Fa Hai, que considera a Bae um demônio maligno que está enganando Xu Xian para devorar outros humanos e fica tentando constantemente exorcizar a coitada e separar o casal. Esse basicamente é o original.

Aquela arte de divulgação enganosa, mas que você só achou bonitinha (este trecho é do final e inicio do conto original)

E a animação o que ela adapta? Nada. Todo o filme é apenas inspirado na história possuindo um roteiro original que conta o inicio de toda a saga amorosa, 500 anos antes dos acontecimentos narrados no conto (no conto chinês é mencionado que a Bae conheceu Xuan 1000 anos antes quando ele era criança, mas a gente releva esta mudança no roteiro) .

A obra é dirigida pela dupla Amp Wong e Zhao Ji e produzida pela Light Chaser Animation, possuindo 1h30 de duração. Apesar de não ser tão conhecido por ser basicamente um estúdio recente fundado em 2017, a animação da Light consegue entregar um produto razoável. Não é ruim. Os cenários são compostos com esmero e de encher os olhos, incluindo um bom repertório de cenas de ação e efeitos visuais, mas também não é espetacular, pecando bastante na expressão facial dos personagens e no naturalismo de algumas cenas.

Os Backgrounds foram realmente feitos com muita dedicação e cuidado

Mas Selena, se a obra não é tão boa assim e mediana, por que a estar recomendado? Porque mesmo não considerando a obra em si um masterpierce, ela consegue entreter e satisfazer o público menos exigente de forma considerável. Para pessoas que curtem uma boa aventura com uma pitada de romance, é uma experiência válida caso queira adentrar um pouco no folclore oriental.

Soma-se a isto o fato das animações e produções envolvendo o fantástico chinês não serem tão divulgadas no ocidente e meio que menosprezadas, e esta animação, como dito anteriormente, acaba explorando alguns conceitos da cultura taoista e da mitologia chinesa.

Para quem não é imerso em aspectos culturais dos chineses, o inicio pode parecer confuso, mas é uma escolha narrativa. Como a cobra branca é um conto bastante popular e vários elementos da mesma é algo rotineiro da cultura deles, não se preocuparam em ficar explicando coisas como a cultivação (todos os espíritos – humanos ou animais – podem meditar e acumulam energia para atingir a iluminação e círculos espirituais mais elevados) e outras filosofias que estão dentro da obra.

Cultivação e absorção de energia para elevação é um conceito bastante presente na obra

O filme se inicia com Blanca (Bai Shuzen) tentando assassinar o General do exercito chinês que é um taioista obscuro que caiu em depravação utilizando de magia negra pra atingir a imortalidade, mas falha miseravelmente e é resgatada por Xuan, um caçador de cobras, que acaba a encontrando desmaiada perto de sua aldeia e a salva. Assim, o resto do filme gira em torno dela refazendo seus passos para descobrir quem ela é, enquanto evita ser capturada pelo General, com a ajuda de Xuan e de seu cachorro Dudou.

Como no conto original, o argumento que move a trama é o amor proibido entre Blanca e Xuan. Xuan é humano e Blanca é um “demônio” serpente (ou cobra).

Toda história de amor tem que ter este momento melodramático de protagonista

A relação dos dois é um tabu por serem de espécies diferentes e principalmente pelas cobras estarem em guerra com os humanos por causa do General que as captura para absorver de sua essência em busca de evoluir seus poderes.

Então apesar de não ser nada inovador e apresentar uma estrutura de jornada do herói clássica, White Snake consegue contar uma história divertida e bem movimentada, mas admito que poderia ser uma experiência melhor se a duração do filme fosse maior e desenvolvessem de forma mais profunda o relacionamento de Blanca com Xuan.

Não me entendam mal. Eu adoro romance, mas a atração de Xuan por Blanca e o interesse de Blanca por Xuan só é conveniente. Exemplo, em determinado momento da trama Blanca acaba despertando seu eu real para Xuan e este simplesmente decide ignorar que ela é um demônio. Por quê? Porque sim. Estou apaixonado pela moça, logo ela é boa.

Bonitinho, mas moço, tu não conheceu a garota , tipo, meio que na semana passada?

Eu nem me importo dele ser autenticamente bom e confiar nas pessoas, afinal este conto pede por um personagem que seja altruísta e empático, já que a temática é esta: o amor supera o medo e o preconceito. Contudo sem criarem algum conflito pessoal que reafirme isto em Xuan, só vai parecer recurso para manter os dois personagens principais juntos.

Em paralelo ao original, esta mesma situação na qual Bae é forçada a revelar seu eu real, a serpente albina, para Xuan e o mesmo a aceitar é mais natural porque os dois já se conhecem há um bom tempo. O conto deixa claro que todo o amor deles é construído.

Os dois já passaram por todas as fases do relacionamento humano. O conhecimento, ambos aprendendo um sobre o outro. A amizade, ambos convivendo e confiando um no outro. A atração ou paixão, ambos se interessando pelo outro, com cortejos, gracejos e por fim, casamento. Isso mesmo. No conto original os dois são cônjuges.

Cenas como esta são mais emocionantes e reflexivas com um tempo de desenvolvimento maior dos personagens

Mas apesar dessas falhas narrativas, como é uma história fabulosa escrita para ser um conto amoroso épico, ela ainda funciona de forma razoável e por isto pode ser relevado estes deslizes e detalhes que causam, na minha opinião, uma certa superficialidade na trama.

Enfim, eu realmente adoraria rever esta história com a devida construção de seus personagens, já que eles são interessantes e como dito anteriormente, é um dos meus contos prediletos da cultura chinesa, mas por enquanto, recomendo a produção para aqueles interessados em conhecer um pouco mais da indústria cinematográfica chinesa e do patrimônio cultural riquíssimo que eles possuem.

Trailer de White Snake de 2019

Extra

Para aqueles que quiserem se aprofundar na história, a Netflix possui uma série, A Lenda do Mestre Chinês, um dorama que adapta com certas mudanças (muitas, mas não vou me alongar aqui) o conto em sua integra até o final que é o aprisionamento de Bai Shuzen no Pagode de Lei Fang (relaxem que o final é feliz).

Banner do dorama na Netflix adaptando o conto original

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