Resenha: Tomie (volume 1)

O início da grande carreira de Junji Ito!

“Tomie” (富江) foi escrito e ilustrado por Junji Ito. Foi publicado entre 1987 e 2000 na revista Nemuki da editora Asahi Sonorama, sendo concluído em 3 tomos. Os dois primeiros volumes fazem parte da coleção “Ito Junji Kyoufu Manga Collection” (伊藤潤二恐怖マンガCollection), sendo lançados sob os títulos “Ito Junji Kyoufu Manga Collection – Tomie” (伊藤潤二恐怖マンガCollection 富江) e “Ito Junji Kyoufu Manga Collection Tomie Part 2” (藤潤二恐怖マンガCollection 富江 Part 2) em 1997, respectivamente. A parte 3 foi publicada com o título “Tomie Again – Tomie Parte 3” (富江 Again – 富江 Part 3) em 2001 e republicada em 2007. Antes dessa parte, foi lançada uma edição compilatória da obra em um único tomo pela mesma editora, saindo com o título “Tomie – Edição Completa de Tomie” (富江 – The Complete of Tomie) em 2000, sendo republicada em 2007. Depois disso em 2002 foi lançada uma versão no formato bunko completa em 2 volumes que pertencem a coleção chamada “Museu de Terror de Junji Ito” (伊藤潤二恐怖博物館), sendo publicados com o título “Museu de Terror de Junji Ito – Tomie” (伊藤潤二恐怖博物館 – 富江). Essa versão também foi republicada em 2007. (Copiei e colei o texto que a Débora fez para a postagem de publicação pelo mundo de “Tomie”. Essas informações são importantes).

“Tomie” foi anunciado no fim do ano passado (2020) pela Pipoca & Nanquim. Na ocasião estava acontecendo o Mangá Awards, um evento organizado por alguns veículos da imprensa especializada para escolher os melhores mangás publicados no mercado brasileiro durante 2020. Eu como um bom fã de Junji Ito, fiquei animado com a vinda da obra, mas triste pelo anúncio da P&N, dado que gostaria que a obra tivesse sido anunciada e publicada pela Devir, ficando padronizada com “GYO” e “Uzumaki”, ambos lançados pela Devir no Selo Tsuru. “Tomie” começou a ser publicado no fim de fevereiro. O volume 2 (FINAL) está previsto para o fim de março. Adquirimos os dois volumes da série e viemos trazer nossas opiniões sobre o título 🙂

Sinopse:Podem matá-la quantas vezes quiserem, que ela ainda assim ressurgirá neste mundo, mais bela do que nunca. Ninguém sabe ao certo quem ou o que ela é, mas uma coisa é certa: se você se deparar com Tomie Kawakami, seu destino estará selado. E ele não poderia ser mais aterrador. Por trás de um rosto fascinante, realçado por uma única pinta debaixo do olho esquerdo, esconde-se um mal terrível. Um mal sedutor, capaz de enfeitiçar os homens e levá-los a cometer o mais hediondo dos atos: o assassinato. Mas como explicar o fato macabro de que a vítima desse instinto homicida é a própria Tomie? Eles a matam, matam e matam, mas o mundo nunca estará livre de Tomie. Deixando um rastro de loucura e cadáveres, essa misteriosa beldade morrerá e matará incontáveis vezes…”


  • História e Desenvolvimento

“Tomie” é a segunda obra que consumo do Junji Ito. A primeira foi “Uzumaki” em 2018 quando a Devir lançou o título. Eu AMEI Uzumaki fortemente e desde então anseio por mais obras do autor, sobretudo a sua famosa trindade composta por: “Uzumaki“; “GYO” que chega agora em março também pela Devir; e “Tomie”, que poderia estar nas mãos da Devir se não tivesse rolado uma furada de olho… Enfim… Tomie foi a grande entrada do Junji Ito no mundo dos mangás. No posfácio no final do volume, ele até comenta que enviou a obra (em formato de oneshot) para o concurso Prêmio Umezu enquanto ainda trabalhava como técnico de próteses dentárias (a virada de rumo de vida, meu pai). Nesse concurso, a obra ganhou a menção honrosa da premiação.

O que me chamou atenção logo de cara quando comecei a leitura do volume foi notar o quanto o autor evoluiu e melhorou ao longo dos anos. Quando você pega o 1º capítulo de “Tomie”, é notório que o desenho está mais “precário”. Tem até quadro que parece mal acabado, o que faz sentido, dado que o autor disse no posfácio que acabou o oneshot da obra em cima do prazo limite. Fora que ele estava começando a carreira, então é um tanto natural apresentar esses ‘problemas’ no começo haha. A leitura desse capítulo inicial não é tão dinâmica e sim um pouco truncada. É ainda mais interessante quando você pega outras obras do autor, as mais recentes como comparativo. Uzumaki mesmo que é de 1998 tem um acabamento e detalhamento melhor. A leitura é mais dinâmica e tem diálogos mais elaborados. Eu falo isso não querendo desmerecer os trabalhos. Eu real vejo como um acréscimo! Eu particularmente gosto muito de autores que já estão no mercado há alguns anos, porque dá para ver o quanto eles melhoram no decorrer dos anos e nos seus próximos trabalhos. Mas fato é que “Tomie” foi de suma importância para o Junji, sendo ela o início da construção de seu título como o “Mestre do Horror” no Japão.

Tomie, pelo menos nesse 1° volume, é semelhante à Uzumaki em sua estrutura narrativa, em que boa parte dos capítulos são contos “fechados”, com casos específicos que vão crescendo até se tornar algo maior dentro daquela parte da história. A grande diferença entre um e outro é que Uzumaki tem capítulos bem mais soltos. As histórias se conectam por se passarem na mesma cidade e com os mesmos personagens, porém acabam sendo casos bem isolados dentro da história, enquanto que Tomie cria uma conexão maior entre seus eventos. De primeira impressão, parece que essas histórias não possuem quaisquer ligações, contudo conforme você vai lendo e revisitando algumas páginas anteriores, é visível que o autor vai deixando algumas pontas soltas, com personagens reaparecendo em uma história distinta, com uma cidade ou cenário novo, mas tudo parecendo se encaixar de alguma forma.

Eu fiquei um pouco confuso no começo, porque algumas passagens que o autor faz não ficaram muito boas. Tem uma passagem do presente para um flashback em que a transição da cena é um quadro em branco, sem nada escrito/desenhado. Acabou passando despercebida por mim, gerando uma confusão no que estava acontecendo. Tive que voltar algumas páginas para entender o que de fato estava ocorrendo. Mas não dura muito tempo, visto que o mangá foi lançado ao longo de anos. Fica bem marcado a evolução do autor dentro do próprio mangá. Se você pegar o capítulo 1 e olhar depois para os capítulos finais, tem uma boa diferença. O capítulo 8 (Queda D’água) é um ótimo para exemplificar ^^

Há toda uma questão de horror gráfico aqui. Muitos falam de “terror” nas obras do Junji, porém elas não vão te assustar (ao menos ‘não deveria’). Ele vai te chocar, te deixar com nojo ou repulsa. Junji Ito é o mestre do horror e não só as ações de alguns dos personagens são cruéis, como a questão de desmembrar a Tomie. Também todo o trabalho visual por cima disso é que dá o toque especial nessas cenas. Órgãos expostos, pele decompondo, gente sendo devorada, tudo isso compõem a obra de tal forma que a torna tão especial. A arte do Junji é o “tchan” desses contos. Esse é um dos motivos de adorar tanto o autor e olha que aqui não estamos nem perto do ápice dele na questão artística!

Quando se falava em “Tomie”, eu acreditava que a história se passava pela perspectiva da personagem. Mas não! A história toda é envolta dela, mostrando suas vontades e em como ela entra na vida de diversas pessoas que ela esbarra. Raramente temos momentos em que ela protagoniza uma cena. Ela está lá, entretanto não temos pensamentos da personagem em momento algum, por exemplo. Cada capítulo temos algum(s) personagem(s) principal(s), vemos um pouco de sua vida até então, sua rotina, contexto e tudo mais, até o momento em que Tomie cruza seu caminho e a partir disso, tudo começa a mudar… Para pior, MUITO PIOR. E não é atoa. Não sabemos o que Tomie é. A questão da personagem é que, como a própria sinopse diz, se você encontrar com ela, um destino terrível lhe aguarda. Se ela é uma aparição, fantasma, demônio ou monstro, ainda não sabemos.

E falando mais dessa questão do quê ou quem é a Tomie, eu fico MUITO intrigado com a sua origem. Eu achava que ela era uma garota “normal” que por algum motivo, os caras a matavam. Talvez por ela rejeitar eles, sei lá. Mas não. É algo muito além e completamente diferente do que eu pensava e até esperava. A guria está lá para causar o CAOS MESMO. Está além dos caras serem escrotos. Eles sentem uma compulsão, uma vontade absurda de matar e esquartejar ela. Criam uma completa obsessão de estar com ela, de monopolizar a Tomie, seguido pela vontade de matá-la. Em alguns casos essa vontade é tão repentina que eles nem se dão conta que deram uma facada nela. Os caras ficam em completo transe diante da Tomie. Eu adoro que ela faz homem de capacho, brinca, pisa, hipnotiza eles fazerem de tudo, muito embora custe sua vida. Claro que Tomie não é nem um pouco santa. Como eu disse, ela está como o agente do caos ou um dos Cavalos do Apocalipse. Ela vai infernizar garotas, vai “roubar” seus namorados, crushs ou qualquer garoto que esteja perto. Todos esses fatores me levam a pensar ainda mais no que ela é e no seu objetivo.

E mais interessante ainda é a habilidade de regeneração da personagem. Qualquer pedaço dela começa a regenerar uma nova Tomie Kawakami. Em alguns de seus casos de assassinato, esquartejaram ela em mil pedaços e esses vão se tornar mil novas Tomie’s. É bem provável que assim como Uzumaki, o caso de Tomie vai crescendo e tomando proporções cada vez maiores. Ela está aparecendo em cada vez mais lugares, em diferentes cidades. Alguns com mais de uma Tomie no mesmo local. Até mesmo os órgãos e o SANGUE podem desenvolver uma nova cópia dela. E nessa mesma linha surgem até alguns tipos de pesquisa com relação ao sangue da Tomie e a possibilidade de usar ele como cura para doenças!!! É algo tenebroso. Mas toda vez que ela morre, vem o pensamento “Pobre Tomie”. Por mais que ela mesma cause boa parte de suas mortes, eu sinto que ela é solitária, em busca de atenção ou amor. Ela me dá essa impressão, mas para ter certeza, terei que ler o final desta história.


  • A Edição Nacional

A edição nacional está sendo publicada no formato formato 15,5 x 22 cm, no papel Pólen Boldcapa cartonada com sobrecapa fosca e verniz localizado no título. O preço de capa de R$ 64,90. No começo da pré-venda era aplicado 30% de desconto caso você compre os dois volumes da obra JUNTOS na Amazon. Contudo não sei dizer se a essa altura do campeonato os 30% foram mantidos. O volume 1 foi lançado no final de fevereiro, enquanto que o segundo e último encadernado será lançado no fim de março. A encadernação do volume está ótima, as páginas são coladas e costuradas, o que permite abrir o volume tranquilamente, sem ter medo das páginas caírem.

A tradução e adaptação estão boas também. É uma leitura fluida e não possui uso de honoríficos ou uso de palavras japonesas ‘desnecessárias’. Só teve um único momento que achei uma fala um tanto desconexa daquela realidade. Em um determinado momento do mangá, um personagem pensa a seguinte frase: “Não muito tempo após o incidente, uma cena de arrepiar fez as pessoas tremerem nas bases“. A frase tem uma gíria/expressão que pode não parecer nada, porém se você considerar contexto, sendo um mangá que se passa nos anos 1990, essa fala fica muito deslocada. Fora que usar uma expressão como essa vai datar a tradução. É muito complicado inserir esse tipo de adaptação dentro do volume, porque certas coisas funcionam somente em épocas muito específicas, e essa em questão foi bastante usada no começo dos anos de 2010. Não é muito usado atualmente. Daqui uns anos vai estar datado, portanto a tradução vai envelhecer mal e rápido. Esse foi o único problema que achei. Não encontrei erros de revisão no volume.


  • Conclusão

“Tomie” foi uma leitura experimental, eu diria. Apesar de conhecer um pouco do estilo do autor graças à “Uzumaki”, é deveras interessante conhecer a introdução de um autor tão famoso ao mundo da produção dos mangás. Conhecer “Tomie” é importante para entender como começou essa ascensão da fama de Junji Ito. O mangá em si parece que irá tomar rumos cada vez maiores e espero por um final muito doido, tal qual foi em Uzumaki hahaha. No fim das contas mais que recomendo o mangá. Se tiverem uma oportunidade adquiriram, porque está valendo muito a pena! ^^


  • Ficha Técnica
  • Título original: Tomie (富江))
  • Título nacional: Tomie
  • Autor: Junji Ito
  • Serialização no Japão: Nemuki
  • Editora japonesa: Asahi Sonorama
  • Editora brasileira: Pipoca & Nanquim
  • Quantidade de volumes: Completo em 2 volumes
  • Formato: 15,5 x 22 cm
  • Papel: Pólen Bold
  • Preço: R$ 64,90

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