Review de Kaguya-Sama wa Kokurasetai: Tensai-tachi no Renai Zunousen – Love is War (e recomendação do mangá)

Uma das melhores comédias românticas que tivemos nos últimos tempos.

SINOPSE: Kaguya e Miyuki são os melhores alunos de uma escola de elite japonesa. Participantes do conselho estudantil, junto com uma convivência forçada, se apaixonaram um pelo outro. Porém, são muito orgulhosos em admitir tal sentimento, por acreditarem que quem se declarar primeiro, irá perder uma guerra implícita, sendo inferiorizado pelo seu adversário. Acompanhamos essa disputa não oficial de cada um de fazer o outro declarar seu amor.

Vou fazer um pouco diferente nessa minha review do anime de Kaguya-sama, como eu costumo publicar. No primeiro momento vou falar de forma bem superficial sobre o anime, ressaltando suas qualidades de produção, roteiro, direção e animação. Em seguida, tentarei fazer uma propaganda do mangá e o porquê vale a pena de investirem um tempo de leitura no original.

Falando sobre o anime

Há alguns meses, o João comentou sobre alguns episódios da segunda temporada do anime de Kaguya-sama. Até para reforçar certos aspectos, a primeira coisa a ser elogiada e que salta aos olhos logo de cara é a qualidade visual. Nem falo de animação fluida e sim da grande variedade de técnicas e estilos artísticos que compõem todas as cenas. Desde a tentativa de várias transições rápidas para diferentes tipos de desenhos, até a manipulação sensorial através das cores colocadas em cada frame. Vai de traços fortes e grosso com muitas linhas de ação, para uma animação mais delicada, traços finos e agudos, com referências aos romances presentes na demografia shoujo. E em nenhum momento o espectador fica perdido por essas mudanças nos designs dos personagens ou dos cenários. Tudo se encaixa com o clima proposto dos episódios, junto com a edição rápida e dinâmica de cada cena.

E falando em edição, muito do responsável pela excelência da animação vem das mãos do diretor dessa adaptação (Shinichi Omata) e do diretor de fotografia (Masaharu Okasaki). É difícil ter um alto nível de produção nos animes de temporada, principalmente pelo fato do orçamento ser um limitante. Porém no anime de Kaguya, o diretor consegue ser inventivo na tentativa de deixar aquela obra mais atrativa possível, dado a suas limitações. Existe um preciosismo nas expressões de cada personagem, evidenciando seus sentimentos e intenções das mais distintas formas divertidas ou tensas que podem esperar. Tudo é para potencializar a comédia situacional, ou algum drama de alguém do elenco, ou parodiar o cotidiano dos adolescentes, evidenciando algumas posturas que os jovens japoneses se encaixam nas ocasiões de sua vida escolar.

Por exemplo, o que é esperado quando alguém se declara para o seu amor e quais são os eventos “APÓS” esse acontecimento? O clichê era um romance vindo depois dessa declaração. Porém, não é ‘exatamente’ isso que vai acontecer com base na personalidade do grupo principal. Todos não seguem o “padrão” dos jovens japoneses e logicamente temos das mais variadas respostas de cada um. A Kaguya vivia isolada de amizades graças a interesses familiares, o Miyuki era rebelde e não confiava nos outros na infância, o Yuu era um recluso social por causa das falsas acusações que sofreu, a Chika é uma guria avoada e interesseira, e a Miko é muito rígida com comportamentos estudantis dentro da instituição. Logo, todas convenções sociais que são esperados para afeto amoroso, são distorcidos perante a mentalidade de cada um, gerando cenas de comédias ENGRAÇADISSIMAS, sendo potencializados pelo excelente timing cômico do diretor. E não são só nos momentos amorosos que a comédia funciona. Discussões banais como qual o melhor mangá que eles leram, sobre jogos de tabuleiro, sobre qual o melhor doce, fazer apostas de quem perder paga um castigo… São circunstâncias randômicas, porém não deixam o roteiro no marasmo de sempre falar de amor no enredo. Momentos de respiros necessários, até para desenvolver o elenco, porque não se enganem que essas sketches não são importantes. Discussões, vitórias, brigas, declarações, conversas, segredos, tudo vira uma consequência para algum momento futuro. Todos os personagens absorvem e assimilam o resultado na sua postura ou personalidade. Então não pensem que Miyuki não saber de cantar vai ser coisa momentânea, pois esse fato vai ser de escada para mais piadas dali para frente. Então diferente de alguns animes com enredo episódico, perder atenção para os menores detalhes, pode fazer a diferença para o teu entendimento do roteiro no futuro.

Elenco variado

Os personagens são os mais variados possíveis, com a maioria apresentando um carisma absurdo, rolando alguma empatia ou torcida para alguém do elenco. E todos apresentam uma química muito boa, graças aos bons diálogos e cenários de fáceis identificação, como desafiar os amigos para realizar tal ato, ou de conversas banais, como comer um prato de alimento de forma adequada. São momentos exagerados para valorizar a comédia, entretanto servem para estabelecer certos vínculos que o autor vai explorar em algum drama futuro.

Falando no drama, não é porque a obra tem como tema central a comédia que não precisa de alguma história como background. E eu adorei que o autor trouxe mais camadas para o que ele está contando, até para tornar o anime de Kaguya-sama mais longínquo, sem enjoar o leitor/espectador. Vamos desde problemas como bullying, revenge porn, boatos, passando por situações de isolamento social, conflitos familiares e depressão. São pequenos momentos (no quesito tempo de exibição), porém importantes para contextualizarem a motivação de cada um. Particularmente, eu gostei muito da história do Ishigami. É daqueles personagens que são muito mais do que estereotipo mostrado nos episódios anteriores. Prefiro não comentar muito sobre esse arco do personagem, pois ainda está acontecendo no mangá nos capítulos recentes e tenho que ver a resolução desses eventos para ter um parâmetro melhor sobre o desenvolvimento dele.

Um destaque que eu dou é sobre as músicas de abertura cantadas pelo Masayuki Suzuki, que são fantásticas. A parte de animação, mesmo não sendo esbanjadora, ela apresenta uns cortes lindos e fluídos, com referência a outros animes e filmes famosos. E as menções não se focam apenas na cultura oriental. Séries e longas americanos são citados a exaustão. Ângulos homenageando filmes de terror, até personagens que atuam falas famosas do cinema mundial. Tudo muito bem encaixado e natural no contexto. A trilha sonora não se destaca muito, entretanto é eficiente, casando-se muito bem com as cenas de maior relevância ou de grande catarse emocional.

Então, se você não viu o anime, dê uma chance a ele. A animação é majoritariamente comédia, mas tem seus momentos de desenvolvimentos de personagens muito bem estabelecido. Se querem ter uma ideia do clima da adaptação, se você assistiu Sket Dance ou Gintama, Kaguya segue uma linha parecida de ter momentos engraçados e dramáticos bem definidos. Como senso de humor vai de cada um, você irá precisar seguir a lei não escrita de ‘assistir os 3 episódios’ para ver se gosta do anime.

Agora comentando sobre o mangá

A partir de agora, vou falar sobre o mangá de Kaguya-sama. Não vou comentar muito aprofundado sobre os eventos mais importantes e nem falar sobre o enredo em si, entretanto, se você é muito sensível a qualquer tipo de spoiler por acreditar que atrapalha a experiência, recomendo a você não continuar lendo o texto.

Eu fiquei muito surpreso sobre como o autor é MUITO ATUAL com os assuntos do nosso presente. Vou dar um exemplo: sabem essa nova onda de Youtubers com avatares de anime? O autor utiliza essa situação como escada para várias piadas envolvendo um personagem específico (Até porque temos parte do elenco de Kaguya que não tem aptidões com tecnologia). Ou coisas como ganhar dinheiro com a internet, as lutas de causas sociais como LGBT, o afastamento do contato físico em detrimento da facilidade virtual de conversar com alguém, como fazer amizades ou pedir pessoas em namoro, a objetificação de grandes corporações em relação a lançamentos de novos produtos tecnológicos, debates políticos sobre temas atuais (obviamente envolvendo a realidade japonesa)… são temas de 1 ano ou menos do acontecido. Rola até conscientização para assuntos mais sérios em que o autor explora como crítica ou ironia desses costumes que ele ver como antiquado. Então não se enganem que só por ser uma mangá de comédia, não teremos um teor político aqui.

Uma parada que também chamou a minha atenção foi explorarem com mais ênfase o desenvolvimento do elenco de apoio. Personagens que são meros figurantes nas duas primeiras temporadas do anime, tem uma evolução e desenvolvimento muito grande ao que nos é apresentado na adaptação. O que eu senti falta foi de um trabalho melhor para a personagem da Chika. Se compararmos diretamente com os demais personagens, ela fica para “escanteio”, só servindo como alívio cômico em todas as suas aparições. Eu não reclamaria disso, entretanto, quando vemos que uma personagem que não tinha nem 10 linhas de falas nos primeiros 100 capítulos, ganhando um destaque GIGANTE em dois arcos específicos, em que acompanhamos sua evolução como pessoa, se tornando um ser humano melhor, fica uma enorme diferença para a Chika, que na teoria faz parte do elenco principal, e nem sei o que ela é, além do estereotipo estabelecido no começo da história. Tipo, você sente que o elenco de personagens apresenta uma evolução nítida do começo até agora e a Chika continua quase a mesma do começo. Não considero como defeito, porque essa é a proposta dela, mas fiquei com o sentimento de querer ALGO a mais para uma personagem tão carismática, além de ser uma piada ambulante.

Teve uma parada que me surpreendeu em diversos momentos foram as quebras de expectativas. A história sempre foi brincar com paradigmas japoneses para zoar, mas diversas vezes tinham paradas acontecendo que eu não fazia a mínima ideia do que veria a seguir. Essa imprevisibilidade me agradou e MUITO, porque se estou assistindo ou lendo alguma obra e eu já sei o que vai acontecer, minha empolgação de continuar vendo cai drasticamente. Para mim, um bom contador de história tem que saber “enganar” o seu público para instigar sua curiosidade em continuar a consumir seu produto. E o autor tem que saber estabelecer um bom ritmo narrativo, deixando a leitura dinâmica e atrativa.

E na época que eu vi o anime, dava a impressão de que todo o timing cômico vinha do diretor da adaptação, desde a edição rápida com exageros de expressão, até as referências da cultura pop mundial. Só que grande parte do mérito é vindo do mangá realmente. E relendo os capítulos iniciais, dá para perceber que o mangá não foi apenas um guia para a adaptação, como sua estrutura que serviu de base para todo o roteiro da adaptação em estipular o clima mostrado. Temos algumas mudanças aqui e ali, porém tudo vem para melhorar ainda mais a história que é mostrada para o espectador. Os designs dos personagens são muito parecidos (para não dizer idêntico), a forma com as sketchs são montadas seguem a mesma ideia do mangá e até os diálogos são pouco mudados em relação a transposição de mídias. Então, quem tinha medo de que o anime e o mangá fossem MUITO diferentes, podem ficar tranquilos que se você começar a ler o mangá agora, nem notará as diferenças entre as duas mídias.

Assim, se você tiver disposição e ficou interessado, recomendo fortemente tanto o anime de Kaguya-sama como o seu mangá, porque com certeza, foi uma das melhores comédias românticas lançadas nesses últimos dois anos no Japão, apresentando várias qualidades e méritos do que normalmente encontramos entre as centenas de títulos novos disponibilizados por lá.

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