Review de Beastars

Animais antropomorfizados recitando Hamlet.

SINOPSE: Em um mundo de animais antropomórficos, herbívoros e carnívoros vivem em uma sociedade, com uma convivência mútua muito frágil. Nessa realidade, Legosi deve aprender novas experiências durante sua juventude enquanto frequenta a escola prestigiada Cherryton. Entretanto, tudo começa a mudar após um assassinato que ocorre dentro das dependências da instituição.

Bichos enfrentando problemas de humanos

Vou dizer que fui surpreendido pelo teor de Beastars. Fui ver o anime só pela sinopse e do primeiro PV que foi lançado antes da sua estreia. Nunca tinha ouvido falar dele anteriormente e poucas pessoas que conheço, liam o original. Fui ver sem expectativa alguma. Logo nos primeiros episódios, já estava encantando com a história, e tratei de ler o mangá para chegar nos últimos capítulos lançados. Para vocês verem que o anime me impactou legal com seus temas.

Eu diria que o ponto forte de Beastars está nos assuntos abordados. Apesar de não serem humanos como os personagens na trama, todos os obstáculos como as situações criadas, são referenciadas diretamente a todos problemas que a nossa sociedade humana enfrenta diariamente. Desde assuntos mais delicados socialmente, a problemas psicológicos em abundância nos tempos modernos. Racismos, diferenças de classes sociais, ansiedade, imposições, representatividade, responsabilidade, política…entre muitas coisas que são abrangidas pelo roteiro de Beastars.

O destaque que dou é para as diferenças de gênero. Diversos questionamentos são levantados pela autora. Qual é o valor feminino diante de um grupo? Quais são os perigos enfrentados por elas? Os preconceitos, as aflições, os julgamentos, as dificuldades…tudo é citado como forma de crítica social para esse abismo no tratamento de gêneros que temos no nosso mundo. E faz todo sentido, inclusive biologicamente falando, já que a fêmea, geralmente tem uma estrutura física inferior em um comparativo com o macho. Temos até comparativos/analogias a herbívoros e carnívoros, em que o “predador” é insaciável, e muitas vezes age pelo impulso, de pensamentos não racionalizados para saciar seus desejos. O Legosi vive nesse dilema a todo momento em que, nem sempre estaremos no controle dos nossos atos e devemos nos policiar em um autocontrole constante, para não perdemos nossa sanidade. A Haru seria a representação dessa critica. Julgada por manter relações sexuais com vários parceiros pela sua insegurança emocional, sua estatura baixa por ser de espécie frágil, alvo favorito dos carnívoros, por ter dúvidas de seus sentimentos…tudo são aflições que a maioria das mulheres sofrem no dia-a-dia. Essa dicotomia das nossas relações humanas, são a base para toda a discussão que a obra levanta em seu roteiro. E é feito de forma tão inteligente e sutil todos os pontos, que é impossível não se impactar com algum assunto mostrado na adaptação.

O racismo é outro problema muito abordado. Não são os mesmos casos racistas que os humanos fazem, porém é um paralelo muito forte sobre essas questões sociais que vivenciamos. Uma obra que utiliza os animais para realizar as analogias para as críticas da sociedade moderna, só demonstra a criatividade e o controle que a autora tem sobre o que quer contar. Então, ter um mangá com esse tipo de abordagem, não é só qualidade em si, e sim uma responsabilidade para sensibilizar o leitor de problemas que enfrentamos no nosso meio.

CG não é um empecilho aqui

Esqueça que o anime é em computação gráfica. A diferença para a animação tradicional ainda é perceptível, mas 99% do tempo, você vai ignorar esse detalhe, já que o CG aplicado no anime é de alto nível. Eu até diria que se os animes FULL CG forem desse nível daqui para frente, a animação “2D” não fará “falta” pela sua escassez de mão-de-obra especializada. A tendência é que esse estilo de animação se torne mais comum daqui alguns anos. Então, sabendo que podemos atingir esse nível de qualidade de produção, me deixa mais tranquilo para essa transição eminente. E falando em animação, a OP em Stop Motion é FANTÁSTICA. Uma das mais artísticas que tivemos no último ano. Ao lado da OP de MOB, ela está no TOP de Openings mais engenhosas do ano passado.

A direção do anime é outro foco de elogios. Tudo estava no nível altíssimo. Além disso, a produção ousou em diversos momentos para potencializar as cenas exibidas. Muitas representações visuais, uma fotografia mais arrojada com ângulos menos usuais, uma paleta de cores alternante com o momento propicio, uma trilha sonora orquestrada com predominância a contemplação e reflexiva, e uma edição afiada com o teor abordado pelo roteiro. Tudo muito redondinho. E onde acharam que deveriam ter mudanças necessárias, acertaram em manter o essencial na transposição das mídias. Eu diria que junto com Vinland Saga, foram as melhores adaptações da temporada passada.

Outros comentários

Uma parada que acho estranho é a questão do assassinato que acontece no primeiro episódio. Não do fato em si, mas como ele foi trabalhado na obra. Tanto no original, quanto no anime, decidiram manter a ideia de deixar esse mistério de lado por dezenas de capítulos, dar um foco maior em outras paradas, para depois voltarem a trabalhar com o crime, sendo que teve saltos temporais desde que ocorreu esse lance, até retornarem com o caso. Depois que eu sei o que houve por já ter lido o original, menos sentido faz essa decisão, já que um aluno foi BRUTALMENTE assassinado na escola e toda essa parada foram deixados de lado, sem nenhuma explicação. Não é que eu não gostei desse caso. Tanto que é um dos meus arcos favoritos do mangá. Só não compreendo a ideia da autora, em desviar a atenção do espectador para uma outra parada e nem citar o que está havendo durante esses meses passados. Essa troca de ordem cronológica que não faz sentido para mim já que a autora é tão cuidadosa com o que está fazendo.

O Louis é um personagem que gosto. Esse meu apreço vem mais do mangá, por justamente trabalhar em outras vertentes com esse ex-escravo orgulhoso (Estou evitando de comentar algo além disso para não dar spoilers).

O ponto mais baixo para mim de Beastars foi o arco do sequestro. Não gostei dele no mangá e no anime não foi diferente. Acho um exagero e inserções de paradas MEGA FORÇADA. Entendo o que a autora queria passar aqui, porém, para uma história que estava tentando manter um certo nível de “realismo” no lance, ter um lobo e um panda bombado invadindo um covil de dezenas de leões SOZINHOS, tira totalmente o lance crível que estava sendo mantido antes. Sei que vai de cada um, mas o meu senso de descrença foi ultrapassado com todo o plano de resgate da Haru.

Conclusão

Acho que nem é uma recomendação e sim uma obrigação sua meu caro como otaku a ver essa obra. ASSISTA BEASTARS. Tem na Netflix (com um subtítulo asqueroso) e em muitos sites de subs por aí. Não perca essa chance porque o anime vale muito a pena. Só não aconselharia para as pessoas que gostam dos animes ‘tradicionais’ (ação e porrada). O resto do pessoal, devem assistir.

2 comentários em “Review de Beastars

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