Review de Dr.Stone

Sinopse: “Conta a história de Senku, um gênio, que renasce 3700 anos depois que uma luz misteriosa petrifica toda a humanidade. Usando-se de conhecimento científico, ele tenta restaurar a humanidade moderna no futuro pré-histórico”

Um dos animes mais populares da temporada passada e com anuncio de continuação previsto para o ano que vem, isso me motivou a comentar um pouco das minhas impressões sobre o anime.

Para quem não viu e leu a sinopse acima, deve imaginar que o tema central da animação são os conceitos científicos baseados nas teorias do nosso mundo. E de certo modo, não está errado já que a conjectura cientifica do nosso protagonista, Senku, é a razão para a movimentação dessa trama. Ele tem o objetivo de restaurar a sociedade moderna na nova “Era da Pedra” e utilizar seus conhecimentos de Física, Química e Biologia, para tentar estabelecer novamente a vida moderna num futuro arcaico. A motivação dele desperta inimigos como o lutador prodígio, Tsukasa, que quer evitar a ganância humana e o capitalismo renasçam nessa nova era de recomeço para todos que despertaram naquele futuro. E assim, temos o nosso “shounen” em que temos os dois lados e suas motivações, lutando entre si para ver qual dos ideais irá prevalecer.

Não são CIÊNCIAS EXATAS.

Uma das reclamações que mais vi e escutei de quem viu o anime e não gostou dele é o seu IRREALISMO CIENTÍFICO no roteiro. E esse argumento foi levantando por até certos Youtubers “entendidos” no assunto, afirmando que era um DESSERVIÇO o que o anime estava fazendo, EDUCANDO errado as pessoas dessa forma. Vamos por partes:
1-Anime (se não for essa sua proposta inicial) nenhum tem como objetivo ser educativo. Não existe um conjunto de leis ou de regras que falem que uma animação deve seguir padrões regidos pelas leis naturais e cientificas. Se o anime quiser falar que o ser humano pode voar e isso for estabelecido dentro da sua realidade como mundo construído, ele pode fazer. Se o anime afirmar que ninjas usam roupas coloridas e conseguem invocar bichos gigantes para lutar ao seu lado, ele pode fazer. Não existe limite criativo, desde que o autor consiga estabelecer relações e justificativas fortes para que tal coisa seja inserida na sua obra. A obrigação de qualquer entretenimento é de nos convencer que aquele universo criado é crível dentro de suas próprias regras e das situações criadas para fazer total sentido dentro da lógica estabelecida.
2-Muitos dos conceitos científicos usados no anime existem no nosso mundo. As teorias que são aplicadas, podem ser reproduzidas e é possível obter resultados semelhantes apresentados na animação. No Youtube têm vários vídeos de CIENTISTAS/DOUTORES da área que AFIRMAM que o anime não é TÃO fantasioso como as pessoas que não gostaram do anime dizem por aí.
3-O diretor do anime disse em suas redes sociais que a adaptação tem como objetivo instigar os jovens a aprender um pouco mais sobre ciências e o ramo da pesquisa científica. O próprio diz que o anime não é 100% condizente com a realidade, no entanto, ele tenta deixar o mais empolgante possível todas as representações visuais dos experimentos na tela, na tentativa de impressionar os espectadores e tentar chamar mais atenção para essa área. Assim, se a própria produção do anime não quer seguir a risca a veracidade dos experimentos para deixar o entretenimento mais interessante, então porque caralhos ainda tem o pessoal reclamando disso?

Não estou dizendo que você deve gostar do anime. Só estou levantando alguns pontos que deixam esse argumento de REALISMO no anime muito idiota e imbecil. O anime não mentiu sobre sua proposta. Ou você realmente achava que um anime seria realista com o mundo INTEIRO VIRANDO PEDRA, um maluco DERRUBANDO o LEÃO no MURRO, que eles CONSEGUIRIAM CONFECCIONAR UM ANTIBIOTICO sem o auxílio de FERRAMENTAS especificas, de construir UMA BATERIA para armazenagem de ENERGIA sem todos os componentes de isolamentos energéticos, que conseguiriam MANUSEAR elementos QUÍMICOS PEGIGOSOS com partes da pele expostas e sem roupas devidas, e que conseguiriam achar o Tungstênio FACILMENTE??? É tudo com um alto nível de suspensão de descrença para que ocorra a narrativa e se torne um bom divertimento no final. Não utilizem o realismo como desculpa da sua expectativa errada de Dr.Stone.

Mensagem do primeiro episódio.

Tentativa de fugir dos padrões do gênero.

Se você costuma ou costumava ler/assistir muitos shounens, sabe que a demografia é cheia de clichês e padrões estruturais no enredo, que predominam na maioria dos títulos dentro dessa classificação japonesa. Personagem principal bonzinho e inocente, com um objetivo MEGALOMANÍACO, decidiu sair numa jornada em busca de atingir seu sonho, e no caminho encontra amigos e aliados, que o auxilia nas lutas contra os adversários que irão aparecer em seu caminho. Bem padrão do tipo de demografia.

No caso de Dr.Stone, o anime/mangá não segue esse manual de regras ao pé da letra. Aqui o conflito e as lutas corporais são evitados. A obra se foca na jornada (ou no passo-a-passo) da construção de algum item que irá ajudá-los a superar o obstáculo que apareceu naquele momento. O que importa aqui são as soluções que o Senku pensa e como ele irá construir o objeto para conseguir “combater” seus adversários. Quase não tem luta, mesmo o mangá sendo publicado numa revista conhecida por valorizar a solução de algum conflito, seja realizado na base da porrada. O percurso da construção e elaboração de algum experimento do protagonista é valorizada e destacada como um enorme feito. E levando em conta a situação atual do planeta no anime, o que o Senku está fazendo é de fato digno de reverência e aplausos. Até mesmo nas lutas, o Senku não parte para agressão ou demonstra ser esquentadinho (clichê de personagens principais de shounen). Mesmo nas situações adversas, ele tenta pensar em algum plano para que a luta seja evitada e pessoas não saiam machucadas. Tudo o que acontece serve para valorizar a ciência e a inteligência em vez da violência costumeira empregada nos animes.

Pode parecer que não é empolgante pelo anime não ter conflitos ou lutas de fato, mas é ao contrário. Tudo se torna mais interessante, pois sua curiosidade do que vai acontecer ou como vão abordar tal assunto ou como vão resolver tal problema, que te incentiva a continuar a ver o “Doutor Pedra”. E a equipe de produção do anime faz um excelente trabalho em retratar o que se passa no mangá no quesito experiências cientificas, sempre tentando melhorar as explicações com infográficos, exemplos visuais ilustrativos de possibilidades se vai funcionar ou não tal ato. É tudo muito bem feito a transposição entre as mídias.

Nem sempre o anime acerta

Apesar de eu estar só nos elogios para Doutor Pedra, ele não é isento de deslizes e erros. Primeiro é a produção técnica do anime. Apesar da trilha sonora e da direção serem excelentes, a animação é precária e econômica ao extremo. Tem episódios que só faltou apresentar uma mensagem “Fim da apresentação de slides. Clique para sair” no final, porque era um slideshow feio e disforme demais. Em muitos frames, o design dos personagens estava tão grotesco, que nem lembrava mais o design original estipulado no episódio anterior. Era bem evidente notar esses detalhes numa tela grande ou televisão com uma resolução alta. (não ligo para animação, porém foi impossível não notar)
Segundo problema seria os personagens de suporte. Tirando o Senku, Tsukasa, e o Gen, os demais personagens são bem rasos com uma única função estabelecida no roteiro. Eles são carismáticos e tal, no entanto é inegável que nenhum deles tem algum destaque a não ser ajudantes dos experimentos e criações do Senku.
E o terceiro, aí já complica mais a situação…

Sexualização desnecessária

Apesar da produção do anime aliviar um monte os momentos “ecchi” presentes no original, não podemos considerar isso como normal. Não sou contra um fanservice feminino aqui e ali nos animes ecchis. Eu gosto de ver e me divirto ter esse tipo de cena neles. Só que têm animes que isso faz sentido e tem outros que esses momentos são gratuitos para um caralho. Eu não reclamo que HOTD tem cenas absurdas de peitos desviando de balas (abraço Alê), ou que aparece mamilos em DxD, ou que em To Love-ru todas as gurias caem com as genitálias na cara do protagonista em todo capitulo. Todos esses exemplos citados são animes que tem como “artifício central” a sexualização para chamar atenção do público masculino. Eles estão dentro do esperado para os mangás que são classificados como obras ecchi. Tranquilo até aqui.

O problema demonstrado em “Doutor Pedra” são que todas as cenas apresentadas ali, os closes na bunda, as personagens femininas com poucas roupas, insinuações a sexo oral… tudo isso não agrega em nada na história de Doutor Pedra. O objetivo do anime é ser um shounen com elementos de comédia e aventura. Toda a sexualização presente nos desenhos do Boichi, está ali só para agradar punheteiros. Além de não fazer sentido ter mulheres (e garotas menores de idade) peladas na obra e todas essas cenas deixam completamente banalizados a objetificação feminina naquele contexto. Todas as mulheres ficam nas sombras de algum homem e não se tem uma representatividade feminina forte em Dr.Stone (tirando a força bruta da Kohaku, que ainda é pouco dentro do contexto). É um total desperdício, visto que temos mulheres guerreiras no enredo que poderiam ter um destaque muito maior do que só terem corpos bonitos.

Outros comentários pontuais

Um outro elogio que tenho para o anime são os momentos emocionais, que são excelentes. Enquanto eu lia o mangá, todos esses trechos eram só legais no máximo. O anime conseguiu potencializar essas partes e melhorar HORRORES na adaptação. Teve três momentos que me emocionei verdadeiramente e olha que não chorei com o final de AnoHana (acho forçado demais). É difícil para eu chorar com qualquer obra e o Doutor Pedra conseguiu esse feito. Dou pontos para obras que conseguem passar essa emoção. Outro detalhe que gostei foram de ter momentos que o planejamento do Senku não dá certo, inclusive ter ocasiões que o pessoal sugeria algo mais útil e eficaz que contribuía para que a execução do plano entrasse nos eixos. Fazer dele mais humano, tira esse aspecto de invencível do Senku e que gera tensão nos embates mais complexos envolvendo-o, pois tememos o que pode acontecer com ele se não der certo.
E vou ressaltar de novo aqui a trilha sonora do anime que é muito boa. Não curto muito as Openings e as Endings, mas a OST é excelente. São faixas que você escutando isoladamente, já de dão a ideia e o sentimento de recriação, produção, invenção… diversos instrumentos e estilos que moldam as músicas deixando a coisa toda especial.

Conclusão

Para quem não viu o anime, recomendo a darem uma chance para os episódios iniciais, porque o anime tem seu charme e um diferencial que o destaca dos animes dessa temporada e da passada. Eu gostei da obra, ainda tendo seus problemas. É uma boa pedida para quem quiser um anime com elementos científicos e uma diversão descompromissada.

3 comentários em “Review de Dr.Stone

  1. Excelente review! Conseguiu trazer à tona vários pontos relevantes, com uma abordagem clara e direta. Muito bom mesmo. Sinto falta de mais análises análogas à essa; foi bem divertida à leitura e me arrancou algumas risadas pelo uso de certas palavras (swear words).

    Sucesso a vocês!

    Curtido por 1 pessoa

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