Review de Psycho-Pass 3

Com certeza foi bem melhor que a segunda temporada, mas só também.

Sinopse: “Em um mundo onde o julgamento é dado por um sistema que analisa o estado mental das pessoas e as categoriza como potenciais criminosos ou não, denominado de Sibyl, jovens investigadores trabalham no Japão com essa jurisdição, que a princípio parece que a ordem foi instaurada, porém que esconde verdades desse sistema de segurança implementado.”

Começo esse texto dizendo que não gosto de Psycho-Pass. Nem da primeira temporada, amada por muitos dentro do meio otaku. Acho a primeira temporada pretensiosa e pedante para caralho. Porém, ela foi à melhor coisa lançada de toda a franquia, porque suas sequências são tenebrosas ou esquecíveis para o padrão adotado no começo da série.

Como fã do gênero Cyberpunk, sinto que as temporadas anteriores desperdiçaram tantas oportunidades para aprofundamento temático ou social com várias pontas formadas durante os seus episódios. E com a terceira temporada, junto com um novo elenco de personagens, o PP poderia mudar de ares ou até se tornar um soft reboot dentro da franquia. Seria uma tentativa de chamar atenção novamente dos fãs que abandonaram o anime graças ao desastroso enredo da segunda temporada e até angariar novos espectadores. Só que não foi bem assim o que aconteceu…

Adoro a arte da Akira Amano.

Franquia muito segmentada e dispersa

Já começamos a nova temporada na dependência de filmes lançados no começo desse ano, para um entendimento das mudanças que ocorreram na agência de investigação, que é o núcleo principal da animação e do roteiro. Não falo só da mudança da protagonista anterior, Akane, para a nova dupla (Arata e Kei) que assumiu o posto de personagens centrais na trama, e sim as várias questões que surgiram depois dessas alterações feitas na base estabelecida anteriormente. Por que aquela personagem X está presa? Existe uma agência de investigativa de relações exteriores? Por que todos os personagens das temporadas passadas estão lá, nessa nova agência? Por que a guria que tinha pirado no final da segunda temporada assumiu como chefe? Quem é a chefe dos personagens antigos agora? Entre muitas perguntas abertas por esse começo da terceira temporada, muitas delas são respondidas somente se você assistir os TRÊS FILMES que se passam entre a segunda e a terceira temporada. Essa dependência de assistir os filmes para contextualização que ocorreram nesse intervalo de tempo, já deixa o espectador veterano do anime (os que só acompanham o que passou na TV) perdido e confuso sem muita necessidade.

Existe até um mistério sobre o que foi “revelado” para ter essas conseqüências com os personagens antigos. Só que esses oito episódios deixam essas questões de lado e recomeçam tudo novamente, com apresentação dos novos personagens, estabelecimento das novas relações entre eles e qual será o problema que terá como foco nessa temporada. Você é jogado num “novo anime” em que só temos easter eggs do passado, em vez de mostrar o que de fato está acontecendo naquele mundo e como chegamos naquele ponto, sem um contexto devido. Até mesmo o maluco de cabelo vermelho e a cientista (únicos personagens participantes das temporadas passadas que tiveram algum tempo de tela) são simples coadjuvantes tanto para o mistério do que aconteceu para chegar naquela situação, como para o novo caso estabelecido para o grupo principal solucionar. Tudo envolvendo o elenco antigo são resumidos a aparições momentâneas e ocasionais (eu diria até que é um fanservice gratuito para caralho). Logo, para quem nunca viu PP, pode assistir tranquilamente essa temporada que ela é amigável para quem não conhece nada do anime. Mas para os fãs mais antigos, pode representar um retrocesso do que já foi mostrado em estabelecer um novo rumo para a franquia.

45 minutos para quê???

Uma coisa que não consegui entender foi o motivo que levou a equipe de produção tomar tal decisão, que foi a escolha de aumentar a duração dos episódios nessa nova temporada. No primeiro momento, a ideia é muito boa já que um episódio de 45 minutos parece muito mais atraente para os espectadores já que terão mais tempo de entretenimento de um anime que curtem. Até mesmo novas possibilidades de contar uma história se abriam, visto que os poucos 25 minutos não é mais restrição criativa durante a elaboração do roteiro. Porém, como eu disse, PARECIA ser algo bom e o resultado não foi como o esperado. Não diria que foi ruim ou algo semelhante, porém fica aquele sentimento de não ter encaixado bem essa escolha de episódios maiores. Um exemplo seria na divisão dos arcos. Apesar de termos um caso e um grupo de vilões principais, (inclusive são agentes diretos para os casos menores que surgem durante a temporada) os arcos do anime são organizados de forma estranha. Por exemplo, no primeiro caso envolvendo a morte de um cientista, acaba na metade do episódio dois. E quando eu falo metade, não falo de 20 minutos e sim lá pela meia hora do episódio. Não é algo pensado como um final para um possível terceiro capítulo (considerando a duração tradicional de um anime de TV) e sim algo sem um padrão no sentido organizacional de idéias.

O que reflete nos cliffhangers ao final de cada capítulo, já que mais da metade da temporada, os episódios terminam abruptamente, deixando lacunas bizarras aparentando ser um erro de edição ou que faltou planejar na montagem das sequências dos fatos. Tudo muito esquisito, deixando um ar de desleixo para a produção do anime. Como consequência, temos episódios tediosos, longos, sem um ritmo e dinamismo em sua apresentação. Não chega a ser chato por não ter nada acontecendo ou que esteja enrolado demasiadamente. Só que fica a impressão que podia ser reduzido sua duração para ter um ritmo melhor ou ter um dinamismo narrativo constante para não ficarmos cansados em ter que assistir a quase um filme toda semana.

Meu estado em estar vendo essa temporada.

Mudança de gênero nem sempre funciona

Entendo que mudanças são bem-vindas e depende muito do gosto do espectador aceitar ou não do que foi feito. Só que entramos no caso do limite pessoal, no quanto estamos dispostos a ser receptivos com as alterações feitas e como iremos reagir a elas. Dito isso, não curti essa mudança de temática de Cyberpunk para um CSI do futuro. O foco ficou centralizado nas técnicas investigativas e na resolução do caso, deixando o mundo distópico japonês (Tóquio no caso) de lado, ao contrário do que foi feito anteriormente. Nem sei se posso chamar o PP de anime Cyberpunk mais, porque assuntos abordados no gênero foram deixados de lado. Não existe o debate homem e tecnologia, ou a crítica da sociedade, ou o pessimismo/projeções futuras das ações humanas no mundo… Tudo é deixado em segundo plano.

Ainda temos temas relevantes levantados pelo anime, como os políticos e suas táticas de moldar a opinião pública, até onde o ser humano pode ir à busca de status e poder, dependência química, o preconceito contra os imigrantes ou de etnias… Porém, são problemas atuais que o anime aborda e não expectativas de quais serão as novas adversidades para o nosso futuro como sociedade. Os temas têm sua relevância, principalmente levando em consideração na atual época que vivemos, mas fiquei me perguntando se teria mesmo que ser no PP que precisava trabalhar essas questões? Já que trocaram tudo, não podia criar um novo anime ambientado no presente para levantar esses questionamentos? A impressão que fica é que o pessoal queria fazer uma nova temporada de PP, só que as idéias não surgiram e recorreram a temas conhecidos para justificar a existência dessa nova temporada.

Mais um anime policial no meio de tantos

Nessa temporada, tivemos cinco animes com temática investigativa/policial. Desses, apenas um foi excelente em sua execução de acordo com sua proposta inicial (no futuro, teremos um post falando desse anime). No caso do PP, eu diria que ele foi mediano no que apresentou de elementos investigativos esperados no gênero. Para um anime que assume seguir o ramo de mistério com investigações policiais, um dos principais elementos seria o passo a passo para a resolução do caso criminal em questão. Como espectador, você quer, junto com os personagens, tentar entender o que de fato está acontecendo. É um negocio intuitivo, em que tentamos adivinhar como ocorreu o crime e quem é o culpado. E bons filmes, séries e animes policiais, mostram os elementos e pistas para quem está assistindo, tentar deduzir com as informações disponíveis, o que caralhos houve ali. Esse gênero pede uma participação mais ativa do espectador para fazer a tal “imersão” na obra e poder se conectar com o clima ou com os personagens que estão realizando a investigação do caso.

Nessa terceira temporada de PP eles pulam esse básico e só mostram a dedução/resolução final, sendo explicado através de diálogos expositivos entre os protagonistas. Não tem um processo gradual de juntar as pistas. É apenas o Arata entrando no modo de “imersão empática” (habilidade ou “poder mágico” de pensar como o suspeito desde que esteja presente no local do crime ou em contato com algum objeto em específico) para conseguir o resultado desejado e conseguir uma dedução conveniente. O anime omiti mostrar como ele chegou naquele resultado e resumi a investigação de tal forma, que aparenta que a solução do caso apareceu de repente, não deixando claro todas as informações que o ajudaram a chegar naquela situação. O espectador tem que aceitar porque o anime diz para aceitar, mas não mostra porque temos que engolir esse fato. Bem ruim esse segmento no anime.

Se o Kei dissesse que o Arata é um mutante, eu acreditaria mais.

Tem coisas boas sim

Apesar de só estar reclamando do anime, PP terceira temporada está longe de ser tão ruim como foi à segunda. O primeiro ponto positivo em relação a sua antecessora foi o aumento na qualidade técnica. A animação, direção e trilha sonora estão bem casadas com o que está sendo contado. E, diga-se de passagem, a animação merece um elogio especial, principalmente nas cenas de parkour e nas lutas corporais. Não curto muito a técnica da câmera tremida, mas as cenas são bem-feitas, dignas de grandes produções de animes que são produzidos para o cinema. Outro destaque que merece ser exaltado são dois personagens na trama.

O primeiro seria o parceiro do protagonista, Kei, em que seu desenvolvimento e a motivação são muito bem estabelecidas desde começo. E seu relacionamento com o garoto do “X-Men” (gosto de dar apelidos para personagens na dificuldade de memorizar nomes. Aqui o é o Arata) e com sua esposa é bem apresentada, sem a necessidade de estabelecer diálogos ou diversos flashbacks para mostrar intimidade desse trio.

A segunda personagem seria a governadora da cidade, Karina. Ela ter uma fibra moral, carismática e conseguir manter estabilidade emocional em situações extremas, são adjetivos interessantes em uma personagem feminina, que muitas vezes retratadas são retratadas como frágeis ou passivas as situações em sua volta, levando em conta o estereotipo de Idol representados na maioria dos animes. Gostei desses dois personagens, mas o resto do casting também tem suas qualidades. Em boa parte do tempo são funcionais, porém cada um tem seu tempo para destaque. Há um bom equilíbrio em tempo de tela para cada um possa ter seu momento. A ancora fica pelo Arata que tem aquela áurea mística e misteriosa. Deixa o personagem distante, resultando com que não gere alguma empatia ou que o torne carismático durante sua participação na temporada. Ele é quase um personagem que está ali para servir de ferramenta para a história andar.

Melhor personagem.

Outro ponto positivo seria os casos de cada arco. São diversificados e abordam temas interessantes, deixando a narrativa variada em sua essência, não dando a impressão mais do mesmo na passagem de cada arco.

Resumidamente, Psycho-Pass 3 é um anime que tenta justificar sua existência em levantar assuntos pertinentes na atualidade, só que ao invés de deixar a impressão de algo sensacional ou importante, deixa a sensação de lugar comum ou ausência de inovação e ambição quanto ao público que ele queria atingir com o que ele queria contar realmente. A experiência de assistir é morna e um tanto decepcionante com as possibilidades que poderiam ter sido alcançadas se o roteirista(s) fosse mais arrojado.

Dezenas de anos no futuro e AINDA estão usando a tecnologia 4K. QUE DECEPÇÃO CIENTISTAS DA COMPUTAÇÃO

3 comentários em “Review de Psycho-Pass 3

  1. Rubens, vi sua resenha aqui, que foi passada a mim, e achei muito legal. E acho que merecia um comentário em retribuição

    Eu vou na ideia de que a série tem ideias muito boas mas que ficam confusas quando vão tentar explicar. Eu não comprei 100% a ideia da primeira mas é interessante para o mundo que querem passar. A segunda, gostei dos casos mas não fez sentido como erros previsíveis ainda não eram tratados(criminosos que não possuem um coeficiente alto). E a terceira, eu fiquei perdido nas na ida e vinda dos casos com a conspiração por trás. Como é a terceira vez que a série não me deixou satisfeito com o que desenvolveram, acho que senti uma insatisfação maior, apesar de gostar dos novos personagens e das cenas de ação

    Acho que vou ver os filmes de conclusão, vê se amarram as pontas agora no final verdadeiro

    Abraços

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  2. Caraca! Show de análise… faz um bom tempo que venho sentido uma frustração crescente com PP, considerando a ruptura que a primeira temporada produziu em mim, considerando que também curto pacas o gênero Cyberpunk e o jogo com distopias ‘pós-apocalípticas’ (por assim dizer)… disso isso, ainda não encontrei um vilão fodástico como o Makishima e o jogo que ele convoca aos demais personagens. Realmente, a lógica dessa temporada se perde (e mais ainda quando temos que correr atrás dos filmes para fazer algum sentido) e a sacada de juntar as pistas e, na real, nos darmos contas de que somos todos governados e que não há escapatória (adoro o sombrio de um anime que consegue trazer isso) não aparece. Não tem nem suspiro disso.. para mim ficou marcado mesmo o que tu disse: virou um CSI futurístico.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sinto que a ideia e a temática de Psycho-Pass foi se transformando ao longo das temporadas. Talvez pela troca dos roteiristas entre as temporadas foi o causador dessa mudança toda de ares que teve na franquia tantos nos filmes quanto na série animada. Foram tantas “mãos” mexendo no projeto, que a identidade original se perdeu com o tempo. E até agora eu queria entender o motivo da existência de novas temporadas de PP. Essas histórias contadas na terceira temporada, podiam ser tranquilamente dentro de um novo anime, sem relação com PP. Deram aquela forçada de barra para chamar atenção dos fãs da franquia para assistir mais uma temporada de um anime famoso.

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